Aquele candangos, eu os vi chegar,
carregando o peso da crueldade, arrastados pela força da miséria,
eram homens, mulheres e crianças,
contrastes de receios e esperanças, abatidos, quase nus,
traziam na pele tostada a marca sangrenta dos mandacarus,
era a marcha forçada para o oeste que levantava o norte, o sul e o leste,
em grupos eles iam vencendo caminhos,
onde tombavam homens erguia-se uma cruz, nos braços da estrada abertos para a luz,
e na linha longínqua do horizonte ouvia-se a voz da alvorada,
avante era Brasília, menina que crescia sob a roupagem azul do céu sem fim,
mostrando a face iluminada de esperanças que ao pobre sertanejo fez chorar,
íntimas lágrimas, lágrimas de alegria cristalina, orvalho em noite de luar,
era a alma sertaneja que surgia, era a conquista do pão de cada dia,
o nordestino bravo e forte, fez-se candango, desbravou a terra, construiu aqui o baluarte da fé,
Brasília menina, Brasília mulher,
depois eu os vi partir, estavam mais sujos, mais rotos,
mais sulcadas as covas dos seus rostos
nada restava daqueles seres, nada,
eram sombras místicas que se desagregavam como partículas soltas de noite sem destino,
somente a alma ultrapassava o abismo intacta, simples, imensurável, eterna,
Esta, senhores é a outra face de Brasília, mergulhada na sombra da miséria.
Lilian Magnavita