Iniciamos, em 2009, este projeto sobre as mulheres na construção de Brasília numa pequena biblioteca pública, situada na superquadra 308 sul. A construção é bem simples, com linhas retas, respeitando a regra que imperava nos projetos iniciais de Brasília: modernidade aliada à praticidade. Rodeada de grandes árvores e jardins projetados por Burle Marx, expressa o espírito de urbanismo desejado por Lucio Costa.


Com a ajuda de funcionários dedicados à manutenção da memória da construção de Brasília, pudemos pesquisar, numa caixa apelidada de “tesouros de Brasília”, inúmeros jornais e revistas da década de 60. Na Revista História de Brasília – suplemento número 2 – Souvenir de Brasília, de 21 de abril de 1961, iniciamos localização das mulheres que aqui estavam nos primórdios da construção da nova capital. Além da biblioteca, a pesquisa foi realizada em várias instituições e acervos de Brasília, como o Museu Vivo da Memória Candanga, Clube dos Pioneiros de Brasília e o Arquivo Público do Distrito Federal.

A partir da coleta e análise desse material, percebemos que eram raras as referências à participação das mulheres na construção de Brasília. Com isso, optamos em nomear o nosso projeto de Mulheres invisíveis na construção de Brasília.

Nasceu, assim, a proposta de pesquisa sobre a história da nova capital por meio das experiências das mulheres que aqui chegaram nos primórdios da construção de Brasília. Para isso, realizamos um vídeo com depoimentos que acompanha esse livro e montamos uma exposição de fotos dessas mulheres no Museu da República em Brasília.

Delimitamos a pesquisa em 50 mulheres que aqui chegaram entre 1956 e 1960 e permaneceram na cidade por, no mínimo, 20 anos. Procuramos selecionar mulheres de todas as profissões e priorizamos aquelas que nunca tiveram a oportunidade de contar sua experiência nos primórdios de Brasília. Sabemos que muitas mulheres já não podem contar sua história, simbolicamente selecionamos 4 mulheres para serem homenageadas no lugar dessas bravas mulheres que aqui estiveram e não tivemos a oportunidade de incluí-las na pesquisa.


Irmã Olga, uma das fundadoras das Pioneiras Sociais, Guiomar de Arruda Câmara, membro da Comissão Poli Coelho, pesquisadora que denominou as Águas Emendadas, Tia Neiva, caminhoneira no início de Brasília e depois líder espiritual; e Fumiko Kannegae, agricultora, integrante de uma das primeiras famílias japonesas.


Durante a coleta de dados, as entrevistadas afirmaram que, embora a valorização da participação das mulheres na construção de Brasília tenha sido quase inexistente, elas não se percebiam “mulheres invisíveis”. Com isso, optamos em modificar o titulo do projeto para Poeira e batom no Planalto Central – 50 mulheres na construção de Brasília.

Iniciamos esse projeto com muitas perguntas: por que, nas publicações sobre Brasília, as mulheres nunca eram mencionadas? Qual seria a percepção das mulheres que chegaram nessas “terras longínquas e vermelhas”? Como seria resgatar a história de Brasília do ponto de vista das mulheres?

O livro foi montado com as frases mais significativas das entrevistadas e, por intermédio de suas experiências e percepções, fomos contado a história da construção de Brasília.

Cinqüenta anos depois do início da construção da nova capital, percebemos que seria o momento mais que oportuno para dar visibilidade a essas corajosas mulheres e homenageá-las.

Além disso, o projeto, aceito e estimulado pela Petrobrás, proporciona às futuras gerações, fonte de pesquisa e referência histórica, além de conhecimento das experiências das mulheres em Brasília, no início dos anos 60, que contribuíram para a formação da cultura que permeia a cidade até hoje.


Tânia Fontenele Mourão
Mônica Ferreira Gaspar de Oliveira
Brasília, 2010 – 50 anos.