“As mulheres que vieram para Brasília estavam na frente, criando algo muito novo e tendo coragem para enfrentar uma terra sem nada construído. Quando penso nisso fico emocionada.”

Lia Sayão de Sá

“Brasília era o símbolo do novo, aqui não se tinha controle sobre o comportamento de forma mais conservadora que em outros lugares. Brasília era toda nova, ninguém se conhecia, mas todo mundo se unificava naquele novo e gerava uma solidariedade impressionante.”

Iara Pietricovsky

“Cheguei no acampamento Pacheco Fernandes. A surpresa foi de meu marido, que não me esperava. Eu tinha acabado de casar e vinha de Barcelona, toda arrumadinha. Eu pensei: e agora? Como que eu vou sair no mato com essa roupa? Pus uma calça comprida e uma blusa do meu marido, depois, chamaram três senhoras que tinham chegado naqueles dias e, juntas, fomos arrumar a ceia de Natal. Trouxeram uns perus mortos não sei de onde. Eu nunca tinha tirado pena de peru.”

Carmela Nin Escuder

“Eu morava perto, onde parava os caminhões cheio de gente que chegavam na Candangolândia. Toda hora aparecia uma moça procurando trabalho. Ficava lá em casa no máximo 2 dias. Diziam que tinham que ir embora, porque encontraram com um primo ou com fulano, mas não era nada, era namorado. Parecia que vieram para arranjar marido. Sem brincadeira, num mês eu contei, eu tive 21 empregadas.”

Mercedes Parada

“A união, nessa época, era tão grande que parecia uma só família. O respeito era muito grande, nós íamos fazer compras na Cidade Livre e nossos filhos ficavam com os operários no Palácio da Alvorada, e eles tomavam conta dos nossos filhos direitinho. Então a união entre homens e mulheres era muito legal.”

Wanda Corso

“Aqui em Brasília eu aprendi a ser independente, ser uma mulher assim que podia expressar num meio político, no meio social dos empresários que estavam em Brasília, eu podia chegar pra eles e reivindicar direitos para os empregados deles”

Alice Maciel

“Eu fui a primeira moça em Brasília que usei biquíni. Chegava na beira da piscina com a minha amiga, eu botava uma toalha no ombro e ia escorregando assim na beiradinha da piscina até cair, pra ninguém ver meu corpo.”

Zeni Moreira

“Lá era o paraíso masculino, onde se aglomeravam os barracos das mulheres de vestidos de tule colorido e batons vistosos. Andavam de charretes ou jardineiras e atraíam a atenção de todos. Nós morávamos próximo de lá e muitas vezes acordávamos no meio da noite com gritos e estampidos de arma de fogo. Minha mãe advertia para ficarmos quietos, pois os tiros poderiam perfurar facilmente as paredes de madeira.”

Walnízia dos Santos

“Minha mãe dizia que toda moça, filha de pobre, tinha que ser professora e os rapazes, médicos. Aquela história da cultura da época. Eu disse: ‘Ah, se surgisse um concurso de professora para Brasília...’ Ela me disse: ‘Pois surgiu, quarta-feira eu vi no jornal que vai haver um concurso nacional pra recrutar professores pra Brasília’. Isso foi janeiro de 60. Foi a melhor coisa da minha vida, ser professora em Brasília.”

Marta Cintra

“Os alunos eram uma coisa muito importante, filhos dos pioneiros, dos candangos, tudo misturado. A maioria eram nordestinos e goianos. Isso era novo para mim. Vim do Rio Grande do Sul, nunca tinha visto um nordestino. Aprendi muito com eles, foi uma troca de aprendizagem muito grande.”

Therezinha Rodrigues

“O papel das mulheres, naquela época, era de uma seriedade fora de série. Era uma coisa muito boa, era um conjunto assim, parecia uma família, representava muita coisa. Naquele tempo aqui a senhora não sabia quem era o bom, quem era o ruim. Parecia uma irmandade. Dona Sarah Kubistchek nunca teve o privilégio, morava numa casa de madeira como todo mundo. Tudo era igual.”

Hilda Ribeiro

“Não tinha diversão, então a gente se reunia: um pegava o violão, outro levava outro instrumento, era alegre. Nós cantávamos músicas lindas, tanto é que Juscelino também curtiu muito com a gente.”

Braulina Carvalho

“Quando chegava dia de quarta-feira tinha baile. Tinha dois clubes, um dos ricos e outro dos pobres, que era conhecido como o do peão, mas só que a gente frequentava os dois. Aí nos divertíamos muito. Dia de sábado pra domingo tinha a dança no clube de cima e no clube de baixo, que era bem aqui perto do campo.”

Maria Vicentina

“....imagina na época lá no Núcleo Bandeirante, quando era domingo, o pessoal das obras, aquele pessoal pobrezinho queriam escrever pra família que estava no norte. Eu morava perto do correio, muitos deles pediam pra gente escrever a carta pra eles: ‘eu quero mandar notícia pra minha mãe, eu sentava ‘como é o nome da sua mãe?’, escrevia quando terminava dizia ‘quanto é que é?’, a inocência deles, ‘é nada, eu quero que a sua mãe receba a carta, fique super feliz de estar recebendo a carta de um filho’. Por isso que eu digo, eu volto mil vezes.”

Georgina Câmara

“...cheguei aqui sem nada e hoje eu tenho minha casa, tem meus filhos. Vixe, valeu muito a pena, mas aquilo pra mim foi uma coisa de Deus. Deus me tirou daquele lugar que tava tão difícil, que eu, lá em Currais Novos-RN, morava também na casa dos outros lá e Brasília consegui uma casa para mim e meus filhos, meu marido, Brasília pra mim foi a benção.”

Josefa França

“... a palavra renúncia é muito forte quando me lembro dos primeiros tempos em Brasília. Nós que largamos a nossa cidade,largamos a nossa juventude, foi uma renúncia, você largar a sua cidade, você tem a sua vizinhança, seus amigos ide infância, você largar tudo e vir pra Brasília, então foi uma renúncia, pra mim foi uma renuncia muito grande, sair do meu convívio, da minha turma e vir pra Brasília, porque meus pais vieram.”

Braulina Carvalho

“... eu penso o mundo a partir de Brasília e sou profundamente grata e orgulhosa por essa cidade existir.”

Iara Pietricovsky

“se eu pudesse escolher voltar e passar tudo o que passei, eu voltaria mesmo. Eu passei uma experiência muito interessante eu passaria com ferro e poeira. Passaria tudo de novo.”

Carmela Nin Escuder

“Hoje quando eu vejo uma fotografia daquele tempo eu me emociono muito! Com saudade, com tristeza não sei, uma mistura de coisas, tudo eu achava bonito aquele povo chegando, aqueles caminhões chegando que cobria o sol. Eu achava tudo bonito, tudo era bom, tudo novidade e trabalhando muito o que eu mais gostava mesmo era de trabalhar .”

Mercedes Parada

“Mil vezes que forem construir capitais, me chamem que eu vou, porque foi uma experiência maravilhosa. Foi muito bom chegar, olhar esse cerradão sem ter nada e hoje ver essa maravilha que é Brasília. Eu sou suspeita pra falar, porque eu sou apaixonada por Brasília. Pra mim, não chama pra ir pra fora, pra viajar. Eu quero é Brasília, eu estando aqui no meu cantinho, eu tô no paraíso. Brasília, pra mim, é paraíso.”

Georgina Câmara